COMO É QUE SE ESCREVE?

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É  pressuposto que quem livre pensa, livre escreve.  Se eu não quisesse ser entendida pelos compatriotas escreveria em grego, para os gregos. Mas escrevo para brasileiros e para quem mais possa entender a língua portuguesa ou traduzi-la.   Atribuir-me uma linguagem panfletária, como querem uns e outros leitores,  é destinar chuva para a horta errada. Em se tratando de desmandos políticos, corrupções, injustiças e tantas iniqüidades, não carece de engomar a linguagem: pra mau entendedor a palavra inteira, e não a metade, nem a entrelinha. E, felizmente, tenho memória de elefante, e um elefante incomoda muita gente.

Não é meu objetivo dourar pílulas nem escrever por linhas tortas ou seguir  manuais de mass media em se tratando, repito, de expor minha opinião (crimepensar?) sobre um governo eleito com a melhor boa vontade da maioria de todos nós para cumprir as promessas nas quais a maioria de nós acreditamos, e que foram, literalmente, para o brejo.

Antes uma “linguagem panfletária” que assume o que diz, antes a denúncia em alto e bom som, antes a memória de elefante e a cobrança direta que a enfermidade intelectual, política, moral e cultural que emudece, ensurdece e cega os rebanhos.

Ou com que boas e delicadas palavras diz-se que o governo do PT foi desleal para com seus eleitores ao chafurdar em cumplicidades e torpezas com partidos e políticos qe sempre condenou?

Com que belas letras diz-se que o governo da esperança-que-venceu-o-medo não quer mais companheiros, e  sim comparsas sem escrúpulos que determinem a perpetuação do status quo que é esta sociedade injusta, desigual e miserável em que vive a  maioria do povo brasileiro?

Com que licença poética diz-se que um governo eleito para mudar a cara do Brasil joga com os mesmos dados viciados de todos os outros governos corruptos, entreguistas e elitistas que forjaram-nos ser uma nação de graves, extensas e vergonhosas mazelas sociais?

Com que metáforas diz-se que o atual governo irrompeu de uma votação majoritária para executar com a mão esquerda a mesma pena de condenação do povo brasileiro à exclusão social, à miséria, à usurpação dos direitos e à injustiça, tal como o fizeram as mãos direitas, enluvadas ou não, dos governos anteriores?

Com que palavras se chama um governo de corrupto? De muito corrupto? Descaradamente corrupto?

Atentem, pois, para a perfeita compreensão dos meus endereços na web quando digitarem o www etc e tal e poupem as pilhas das sirenes das patrulhas ideológicas da esquerdinha vulgar petista.

Em se tratando – repito mais uma vez –  de expor a minha opinião, assinada e responsável, a respeito desse governo do PT que aí está, clientelista e servil, pouco espetacular mas bastante sensacionalista, nada melhor do que recorrer ao slogan da popular caneta BIC: é assim que se escreve.

Pelo menos eu, que sou como os elefantes e não ando em trilha de coelhos.

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©foto xenïaantunes

Parecia ter começado bem, com uma festa na Praça dos Três Poderes, não tão concorrida quanto a da seleção pentacampeã, mas, ainda assim, a alegria, o riso fácil, as manifestações criativas estampadas em faixas e camisetas de milhares de pessoas eram fiéis ao refrão da “esperança que venceu o medo de ser feliz”. O sol brilhava e os ânimos exaltavam-se apenas por cumplicidade nos ideais, valores e sentimentos. Foi, sem dúvida, a posse do Presidente Luis Inácio Lula da Silva, uma das raras ocasiões em que uma multidão compareceu, em Brasília, a um ato público de expressão política  pacificamente e em total apoio ao estado de Direito.

Dizia, uma das faixas, que “a estrela mais bela brilhava, naquele instante, no céu do Brasil”. Lula Lá estava, finalmente, em  seu lugar.  E o  país acompanhava, pelos rádios e tevês, o final feliz de uma novela de muitos anos – o direito de mudar e viver em um país melhor, mais justo e muito menos obsceno.

No sexto mês do governo Lula publiquei um artigo – Eu votei no Duda Mendonça e não sabia. Publiquei o que pensava do governo eleito não por leviandade ou presciência, mas baseada nos fatos. Um artigo que eu queria ver desmentido e não ratificado pela seqüência ignóbil de fatos a comprovar que nem eu consegui imaginar que tudo ficaria tão pior: o fundo do poço era falso e  a luz entrevista no final do túnel era a do trem vindo em nossa direção.

Pobre país rico. Tão rico que se dá ao luxo de perpetuar a corrupção, a injustiça e a desigualdade gritantes, desperdiçando dezenas de milhões de votos depositados em fé e confiança em um homem e em um partido com páginas históricas de militância por profundas e necessárias mudanças sociais e econômicas. Tão rico que faz do poder o seu luxo e do povo miserável o seu lixo. Miséria made in Brasil, para a glória dos impérios. Que país é este, afinal?

Um país é um território, tangível, palpável e o Brasil é, sim, um país rico, riquíssimo, mas empobrecido e humilhado por aqueles que o governam. Mas  governo não é algo abstrato. Governos são pessoas, seres corpóreos que têm identidades, idéias, currículos, méritos e, em alguns casos, até antecedentes criminais. Governo e governantes são matéria e não entidades sobrenaturais. E têm nomes e assim devem ser chamados, com os vocativos de excelência e o respeito às liturgias dos cargos quando e se merecedores dos mesmos.

O governo atual do Brasil, presidido pelo senhor Luís Inácio Lula da Silva, poderia se gabar de ter sido eleito em uma das raras votações democráticas do país com a maior quantidade de votos, proporcionalmente às anteriores, além do fato único de serem, tanto o presidente como seu partido, originários das classes operárias e trabalhadoras. Um homem e um partido que tinham, prioritariamente, uma história e um compromisso com as gentes dessas classes – a dos assalariados, dos camponeses, dos pequenos comerciantes etc – e com os sem-terra, os sem-teto e as dezenas de milhões de miseráveis e excluídos sociais.

Se os outros governantes prometeram em suas campanhas as mesmas coisas e nada fizeram sempre foi de se lamentar e pagar o preço por cada voto, mas não de se enganar: todos eram pingos da mesma chuva ou farinha do mesmo saco. No caso deste governo Lula é bem diferente: houve um terrível engano.

Quem enganou quem? Lula enganou a si mesmo ou enganou seus eleitores com promessas falsas e messiânicas? Seus discursos eram delírios de onipotência destinados a gerar um mito a partir do próprio umbigo? Durante a campanha vitoriosa os deuses estavam a seu favor e os astros alinharam-se para que sua estrela conquistasse o céu do Planalto? Ou será que nós é que fomos hipnotizados durante anos por mantras embutidos na sua oratória, palavras mágicas como combate à fome, geração de emprego, soberania nacional, moralização e ética na política e no trato da coisa pública, distribuição de renda, justiça social, reforma agrária, honestidade, decência e compaixão?

Mas logo nos primeiros meses de governo os deuses devem ter dado no pé e os astros mudaram de posição.  Como tudo que é mágico, ou o presidente Lula desencantou-se ou nós saímos do torpor e acordamos para uma realidade feia, com imensa frustração. Uma frustração que em pouco tempo atingirá não somente os bem informados, mas à população em geral, nela reforçando a crença de que  os políticos são todos iguais e constatando, mais uma vez, que o poder corrompe. E deslumbra. E isso não merece mais um estudo metafísico, trata-se simplesmente de descobrir os truques dos mágicos. Ou marqueteiros.

Os fatos estão aí, apesar dos véus com que tentam encobri-los ou dar-lhes um tom cor-de-rosa e  tempero palatável. O governo do Partido não governa, é medíocre, tem um ministério medíocre, logo, um futuro medíocre. Os programas sociais são os mesmos, incipientes ou inexistentes. O Programa Fome Zero é uma piada de mau gosto – ninguém viu, ninguém sabe como funciona nem se funciona, ninguém sabe quem recebe o quê de quem e nem como. A reforma da Previdência foi traiçoeira e desleal. As outras estão encomendadas para seguirem pelo mesmo caminho da perfídia e da sub-repção. A liberação dos transgênicos foi, no mínimo, inconseqüente. As alianças político-partidárias no Congresso Nacional se prestam para agradar a Deus, ao Diabo e ao Fundo Monetário Internacional.

No dialeto economês superavit é a prática da moda, ditada pelo FMI. Não há geração de empregos e sim aumento dos desempregados. Não há um governo brasileiro solidário e integrado aos países da América do Sul – ao invés de Mercosul constrói-se com os Estados Unidos um acordo bastardo e coonestado que é a ALCA. Não há mudança para melhor, mas sim o aperfeiçoamento de manobras para o continuísmo das politiquices que beneficiam  banqueiros, grandes empresários,  multinacionais e as elites.

Não há competência política nem administrativa no governo do PT e sim um loteamento de cargos e funções, em que não se distingue mais quem é quem fazendo o quê e com que capacidade.  Não há crescimento econômico nem desenvolvimento, mas retrocesso e estagnação. Não há justiça, mas um aliciamento que engaveta CPI’s, processos e investigações e faz desaparecer, magicamente, bilhões de reais através de conhecidos esquemas fraudulentos.

Há convocações extraordinárias do Congresso para que os parlamentares votem Nada e recebam não salários, mas gratificações, propinas.   Há intrigas palacianas e suspeições gravíssimas sobre pessoas que ocupam os mais altos cargos do poder e onde não  cabe mais usar dupla face. A cada dia há um novo “caso” que a imprensa se apressa em batizar estilosamente com um nome vulgar, adestrando a população a banalizar e absorver os escândalos financeiros, econômicos e morais praticados por empresários, banqueiros, funcionários públicos, com a participação, conivência ou omissão dos políticos e mandatários. Há, enfim, cobra engolindo cobra dentro dos gabinetes. Mas os sapos estão sendo soltos e vão cantar em todos os brejos o que ninguém quer ouvir.

O governo do PT choraminga porque está sendo atacado. E logo pela “esquerda”. E contra-ataca afirmando que orquestra-se  uma mobilização para desestabilizá-lo – uma repetição monótona usada por todos os governos anteriores para justificar suas ações, inépcias ou safadezas. Aqueles que cobram as promessas dos planos de campanha, os que denunciam, os que criticam são considerados “do contra”, como se apostassem exclusivamente na lógica do quanto pior, melhor – somos todos masoquistas de carteirinha.

Acusam a esquerda e a todos que votamos em Lula e no PT de fazermos o “serviço” da direita. Balela. Isso seria fazer chover ainda mais no molhado, pois o governo mesmo encarregou-se de mesclar-se com a direita e  com tudo o que estava no meio do caminho e fosse de serventia para garantir a “governabilidade” –  como se a garantia já não tivesse sido dada nas urnas eleitorais.

Ao receber a “herança maldita” não promoveu uma devassa, como era seu dever e de direito fazer. Pelo contrário, optou por homiziar e proteger personagens, iniciando uma vergonhosa barganha entre valores éticos e favorecimentos escusos. O baú da herança maldita é apresentado ao público como uma caixa mágica que não se pode abrir e que deve permanecer como símbolo muito conveniente para a sustentação e justificativa dos atos desregrados e lambanças e preterições do governo.

O governo do PT, de deslize em deslize, desce a rampa do palácio.

Lula, nesses treze mais um mês de ocupação do cargo de presidente da República, em que flanou sobre as paisagens e açudes do globo terrestre como uma garça, omitiu-se de cumprir pelo menos uma parte de suas promessas e planos e de exercer seriamente sua função com a postura que dele se esperava – não a de presidente da França, como FHC, mas a de presidente do Brasil, dos brasileiros e de seus “companheiros”.  Sua importância diminui e apequena-se dia após dia. Deixa de ser Lula para ser Luís Inácio da Silva, que estamos conhecendo agora, redimido de seu passado esquerdista e socialista.

Somente a mágica fará com que todos os brasileiros, ao final de seu mandato, tenham três refeições por dia. Ou que sejam gerados mais de dez milhões de empregos. Ou que sejam implantadas reformas sociais que atendam aos clamores da sociedade. Ou que seja pensada e feita uma melhor distribuição de renda. Ou que seja iniciada uma reforma agrária que impeça o MST de cair na clandestinidade.

Ou a mágica ou a assunção, vez por todas e para conhecimento geral de todos, de que Lula é exatamente um camaleão político, como seus antecessores.

A festa acabou e o governo “grávido” já pariu faz tempo. O que o rebento promete é o crescimento do espetáculo, com direito a coleção de bonés, churrascos, futebol, cinema em casa e pagode, um álbum de fotografias do casal presidencial em terras exóticas, uma cortina de fumaça providencial ofertada pela mídia compromissada, um crescimento que é de cavalo pra burro, uma crise social que se avoluma em miséria, violência e desemprego e uma pasmaceira cultural generalizada.

Oferecer esperança é ótimo, mas alimentar falsas expectativas é covardia. Basta de frases de efeito e profecias bíblicas, ninguém merece. A chuva deste ano foi um fenômeno climático e não um milagre lulista.

Publicado em 7.3.2004