E AGORA, JOSÉ? LULA NÃO HÁ MAIS…

Palácio do Planalto, Brasília - ©xeniaantunes

Em uma terça-feira, no dia 13 de abril de 2004, um homem tocou fogo em si mesmo na porta do Palácio do Planalto, em Brasília. Teve 85% do corpo queimado e foi internado no Hospital Regional da Asa Norte, em estado grave.*

No dia seguinte ao ato desesperado ou insano do cidadão , não importa, o presidente Lula valeu-se de seu quase invisível e inaudível porta-voz para declarar que “lamentava muito o ocorrido” e desejar ao desempregado José Antonio Andrade de Souza “uma rápida recuperação”.

José Antonio estava há dois dias perambulando na Praça dos Três Poderes, portanto um cartaz que dizia: “Senhor Presidente, vendi meu barraquinho para vir falar com o senhor”.

O porta-voz de Lula informou, ainda, que “não havia nenhum pedido de audiência protocolado”. E assunto encerrado – que mau-gosto do cidadão em fazer cena de mundo cão com seu gesto incendiário em horário e lugar tão nobres, atrapalhando o trânsito e desconcentrando os Dragões da Independência que ilustram a arquitetura do palácio oscariano! Além do mais, o Corpo de Bombeiros fica praticamente ao lado do palácio, logo cabe a eles apagar incêndios.

Sim, porque ninguém se importou com o homem que estava há dois dias vagando na Praça com seu apelo pessoal.  Há quem justifique que se o presidente atender a um desesperado, logo haverá uma multidão de milhões de indigentes extremados portando faixas e cartazes de protestos e lamentações e ameaçando cometer todo tipo de imolação se não forem atendidos.

Por outro lado, não há nada que justifique um único ser humano atear-se fogo sem que absolutamente ninguém, sequer uma recepcionista ou até mesmo seguranças de tão badalado local não tenham agido precavidamente, procurando acalmar e conter o homem, prestando-lhe uma assistência minimamente humana, quiçá até psiquiátrica. Uma pessoa que ameaça acabar com a própria vida em lugares públicos geralmente busca chamar atenção para seu desatino e no fundo deseja ser dissuadido de suas intenções.

Na história do Brasil os fodidos miseráveis não atentam contra a vida dos governantes, por mais que tenham oportunidade para tal, por mais que existam situações facilitadoras – o que não deixa de ser intrigante – aqui não se matam presidentes, como nos Estados Unidos. (Mas toca-se fogo em índios e mendigos.)

Tampouco não é costume do fodido brasileiro imolar-se como um monge em praça pública em protesto contra as formas, atos, autoritarismos e desmandos de governos. No máximo aqui ocorrem greves de fome, com assistência médica para que não se ultrapasse os limites de resistência.

Não é tradição brasileira que cidadãos aflitos, desesperançados, desempregados e aturdidos com os problemas da sobrevivência façam do alvo de sua raiva e frustração as autoridades, os políticos ou os patrões, secularmente responsáveis pela manutenção e agravamento das desigualdades e injustiças sociais. Ao invés, embriagam-se, matam mulher, filhos, amigos, vizinhos ou adversários de times de futebol. Ou então são atraídos pela bandidagem e o poder da violência, usado para fazer ainda mais vítimas inocentes.  Há os que se organizam ou se abrigam em movimentos radicais de luta de classes, mas a maioria dos indigentes e marginalizados simplesmente entrega seu destino como sacrifício de cordeiro manso ao poder da fé.

José Antonio, o desempregado, tocou fogo no próprio corpo porque queria falar com o presidente, mas o presidente não queria falar com ele.

José não sabia que a festa tinha acabado, que aquela promiscuidade entre povo e “Lula presidente” já havia rendido  louros e manchetes demagógicos o suficiente para coroar a trajetória do operário-padrão levado pelos braços dos eleitores ao Poder supremo do país – enfim, literalmente, já havia enchido o saco. Intimidade, agora, só com os companheiros de churrasco, futebol e pagode, fotos e beijinhos só com a Rainha da Uva e o pobre que quiser falar com Deus que trate de comprar um terno decente para protocolar uma audiência.

Um homem em chamas – imolação ou loucura – é um fato inédito que aconteceu na porta do governo dos trabalhadores, sob as barbas do presidente Lula, exatamente onde e quando não deveria jamais ter acontecido. É um fato para não banalizar nem esquecer, pois o simbolismo implícito lembra que este governo está semeando fogo sobre terra.

Há um ano e quatro meses esse cidadão estropiado que se queimou quase por completo estaria no lugar certo, na Praça, no meio do povo que recebia “Lula Lá” com faixas, pedidos, esperanças, alegria e orgulho. Havia até a chance de o pobre tirar uma foto ao lado do eleito e ser chamado de “companheiro”.

Mas José chegou atrasado. A Praça não há mais, não há mais Lula. Talvez nunca tenha havido.

* José Antonio faleceu na tarde do domingo 18 de abril. Deixou mulher e filhos.

Publicado em 17.4.2004

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s