MATAR E MORRER

 

KIm Phuc - Vietnan

Todo dia é dia de matar muitas quantidades de seres humanos, homens e mulheres, crianças, jovens, adultos, velhos. Todo dia é dia de guerra. Todo dia é preciso questionar se o homem sapiente é uma ilha, um continente ou uma espécie que não deu certo.

A humanidade assassina a si mesma com eloqüência apavorante, determinada a revelar sua face oculta sob genes desconhecidos, atavismos históricos e cultos fanatizantes aos deuses que inventou – criadores, divindades, mônadas, ideologias, religiões, territórios, ouros, óleos, moedas.

As mortes provocadas por engenharias bélicas, mísseis e bombas de todos os graus são espetaculares e cinematográficas, globalizadas através dos espelhos midiáticos enfeitiçantes.

A matança tecnológica de punhados de vidas úteis concorre com o morremorrer dos viventes supérfluos. O dinheiro compra a morte de cidades ou países inteiros. A fome e a miséria se encarregam do restante. O dinheiro ergue monumentos às suas vítimas, a terra consome apenas restos mortais. O terrorismo instrumental  moderno perpetrado contra cidadãos dos impérios leva  à comoção e indignação, o extermínio belicoso de origens, pátrias e nômades à alguma repulsa e o morremorrer de culturas e raças indesejáveis ao indiferentismo. Entre as formas de matar e morrer a diferença é a estratégia e o lucro.

Um valor de mercado é imposto às vidas massacradas nos cenários variados do globo terrestre. Custa caro fabricar armas para destruir cidades, seus edifícios e populações. É barato  apartar as simples existências párias e ignorar aquelas enfermas e improdutivas  dos solos esterilizados por ganâncias.

Os domínios soberanos orgulham-se mais do status de suas vítimas que enlutam-se verdadeiramente.  Expõem seus cadáveres ao mundo como troféus e anunciam revanches ainda mais descomunais. Para cada atentado faccioso praticado contra uma sociedade nova sentença de morte é decretada a outra multidão.

A escalada sistemática do terrorismo que elimina vidas em suas lides cotidianas afirma e impõe sua fé indiscutível. Os complexos métodos e artefatos infalíveis que varrem da face da terra organismos vivos anônimos e desiguais asseguram a expansão e preservação das supremacias dos governos e nações. Entre ambos, a igualdade é a obstinação pela prevalência do dogma.

A desertificação e enfermidade do continente africano, o desaparecimento de seus povos e raças e a miséria e  fome potencializadas nos países subdesenvolvidos ou de terceira classe mundial são quase um favor aos tutores do sistema capitalista e suas fábricas de brinquedos letais. E um sacrifício necessário para os delirantes das religiões fundamentalistas. A diferença na imolação de humanos de todas as geografias e castas desta civilização é a extremação dos atos de terror e de guerra. E a igualdade entre todas as vítimas é a morte.

Os monstros de hoje, sejam eles os identificados como Bushes, Sharons, Sadans e Bin Ladens ou aqueles ainda inomináveis foram gerados no ventre dos cogumelos de Hiroshima e Nagasaki.  E toda essa matança executada por seus seguidores é uma corrida desenfreada em direção à derradeira bomba atômica, onde a diferença entre mortos e vivos será nenhuma.

Publicado em 13.3.2004

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