LULA E A METAMORFOSE AMBULANTE

Ninguém esperava, em sã consciência, que Lula mudasse a história do Brasil em quatro anos ou em 500 dias. Mas esperava-se, sim,  que ele assumisse a pole position, desse uma boa largada e começasse a correr. Afinal, ele vinha treinando há bastante tempo, logo deveria saber muito bem como azeitar uma máquina governamental.

O presidente Lula justifica a incompetência de seu governo alegando que recebeu cinco séculos de atraso e estrago, além da recente herança maldita e das idiossincrasias astrológicas. Só que o tempo urge e o ratos rugem, e ele arrisca-se a entregar o país ainda pior, não se sabe pra quem piorar ainda mais, conforme um dos principais corolários das leis de Murphy.

Lula perde popularidade e credibilidade, mas teima em continuar com seu discurso populista latino-americano, liberando seu DNA para fazer crer que todos os brasileiros somos seus filhos e que não há, nem houve nem haverá pai melhor.

E lamenta-se: se o seu governo não está funcionando é porque a “imagem’ não está boa e a solução que lhe vem à cabeça é melhorar a imagem. Se é nisso que ele aposta, periga que Duda Mendonça invente uma nova jogada de marketing, como sugerir que  Lula tenha uma atitude radical e tire a barba.

Lula se comporta como uma criança que não entende por que seu brinquedo quebrou ou por que já não faz tanto sucesso na escolinha. Ainda não parou pra pensar (ou até meditar) seriamente que seu governo será um divisor de águas na história do Brasil: pra melhor ou pra pior.

Sua fosforiláceas e deslumbramentos estão nos levando para o buraco – a esquerda, o socialismo, ou o que se queira chamar como oposição ao capitalismo selvagem, às injustiças sociais, à miséria, ao subdesenvolvimento, ao globalitarismo, à recolonização do Brasil e à cartilha do FMI.

Já está mais que na hora – antes que se comece a cronometrar os segundos – de Lula  reprogramar a agenda, cancelar os churrascos e as partidas de futebol, dispensar a turma do pagode e do cineminha, voltar das férias e mostrar serviço, pegar no batente, ralar.

Em vez de gravar entrevistas para deploráveis programas de auditório e talk shows de Ratinhos & Gatinhos, mais sábio e prudente seria o presidente Lula fazer o seu primeiro e oficial pronunciamento à nação, através de todos os meios de comunicação em cadeia nacional, sem demagogia de segunda mão, sem ilusionismo e sem gogó.

Melhor avisar, na lata, que  continuará com essa política econômica de superávit primário para pagar os juros de uma dívida impagável e que, portanto, não haverá aumento decente de salários, nem reformas social e agrária, nem geração de empregos e muito menos três refeições por dia.  Que  revele que o  Fome Zero significa que os milhões de miseráveis famintos devem aprender como fazer fotossíntese para sobreviver.

Assim ele baixa logo e de vez as expectativas que gerou nos concidadãos e anuncia, de vero, a que veio, para que todos caiam na real e também decidam o que fazer com o status quo das coisas e o caos anunciado.

Não sei se Lula ainda acredita em seu governo, nas promessas de campanha e se tem mesmo algum compromisso com os “companheiros”, com o Partido dos Trabalhadores, com seus eleitores e com o povo em geral.  Se ainda existe essa possibilidade, é mais que urgente que ele inicie um diálogo com a sociedade brasileira e estude, com os representantes de todas as classes e movimentos,  as escolhas mais adequadas para alicerçar as bases do governo que ele papagueou  ser do social e não do capital. É pegar ou largar, e é agora, com a cara e a coragem de fazer um mea culpa e promover no governo o obrigatório expurgo

Mas se o presidente Lula optou ou foi cooptado pelo continuísmo, pelo entreguismo, pela sarna corrupta que contamina os governos latino-americanos há séculos, então que se prepare para ser ele mesmo engolido pela bocarra faminta dos tantos que têm muito mais know-how nas negociações pelo poder.

Que Lula tenha em mente que as oligarquias políticas que “estragaram” (eufemismo para outra palavra que todos sabem qual é) o país não entregarão nada de bandeja nem farão concessões só porque ele é o operário  que chegou à presidência – atualmente os mitos são efêmeros.

Mas eles, os políticos velhos de guerra, são e sempre serão as raposas destinadas a vigiar os galinheiros. E qualquer idiota sabe quem é que volta vivo quando a raposa sai pra passear com a galinha…

Publicado em 24.4.2004

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