QUEM CANTA SUA FOME ESPANTA

Foi lançado no dia 3 de maio, no Rio de Janeiro,   o “Hino do Fome Zero”. O projeto é uma iniciativa da Universidade Estácio de Sá,  tem letra e música de Roberto Menescal e Abel Silva e contou com  a participação graciosa (ou gratuita) de artistas como Frejat, Zé Ramalho, Gilberto Gil, Jards Macalé,  Jorge Ben Jor e Oswaldo Montenegro, dentre outros.  Além do cedê, foi produzido também um devedê com o videoclipe do hino. Com a singela lembrança de que a renda obtida com a venda dos cedês do single Fome Zero será revertida para o próprio Fome Zero. A cerimônia  contou com  a presença de algumas autoridades ou ministros das áreas competentes. (O trocadilho está na sua cabeça).

É pra ficar comovida com  o nosso We Are The World, made in Brazil, tipo exportação? Será que vai dar pra dançar o tal hino nas raves ou nas festinhas funk? Cantar nas missas do padre Marcelo? Nos programas de auditório nas tevês? Será que a galera vai curtir colocar no sonzão dos carros? Terá brecha pra ser estilizado  por pagodeiros, sertanejos e rappers? Vai pras paradas de sucesso nas jovens pans e transaméricas? O clipe vai rolar na mtv? Vão tocar nas partidas de futebol, em jogos de campeonato? Vai substituir a sinfonia de O Guarani, de Carlos Gomes, na abertura da Voz do Brasil (que, diga-se de passagem, sofreu uma esculhambação nessa revisitada à Mama África)? E vai vender que nem pão quente  e depois ser pirateado e vendido a 5 real nos camelôs antes de cair na rede e poder ser baixado em mp3 pelos internautas do mundo inteiro através dos kazaas? E vai tocar sem parar nas rádios comunitárias em todos os cafundós do país, quem sabe fazendo com que dezenas de milhões de famintos  desencarnem de vez e vivam apenas como espíritos olhando crescer os lírios do campo? Sei.

Em tempos em que o Banco Bradesco tem um lucro líquido de 20% no primeiro trimestre deste ano, com certeza a venda dos cedês vai ser   mamão com açúcar! Todo mundo comprando cedê pra que ele se transforme em pão, arroz, feijão. Ou miojo. Que chique. Mas não, não estou comovida  com esse tipo de ação que vem do ego de  artistas e governantes e da cabeça de universitários alienados que provavelmente nunca leram Josué de Castro pra saber o que é fome, nem devem ter ouvido falar do canto pungente de Patativa do Assaré. E que devem manter uma distância regulamentar da fome – em vez de ir a campo e alimentar algumas bocas optam por seguir o modelito norte-americano lançado por Michael Jackson (o que é acusado de comer crianças) e promover seus shows de cala-consciência nos Faustões e congêneres.

Uma gracinha mesmo alguém te oferecer um cedê do Hino do Fome Zero a 10 real. Você compra, e pronto, já fez sua parte, não importa pra onde vai a grana. E o governo agradece e tira o seu da seringa.

Só tem uma coisa:  se a moda pega, logo os pedintes que lotam as ruas e te abordam nos sinais de trânsito não estarão mais te enchendo de porcarias como jujubas e chicletes, ou adesivos contra as drogas, contra as armas, contra o cigarro ou em prol das criancinhas da creche Santa de Tal,  dos aidéticos da Casa de Fulana de tal, dos surdos-mudos do Instituto tal, dos deficientes físicos da Associação tal, dos AA, dos NA, da seita redentora do milésimo dia do ano do búfalo no horóscopo chinês ou das universais do reino de deus mesmo.

E então? “Vaí aí um cedezinho do Hino do Fome Zero (pirata, lógico) pra ajudar a comprar o gás, o leite do neném?” E os sub-produtos:  “Tem adesivo do Fome Nunca Mais,  boné,  camiseta… (Pra não comprar você deve  alegar que é contra o paternalismo, a pirataria e que é a favor da cidadania, não da mendicância. Cidadania nessas horas é uma abstração oportuna.)

E assim la nave va, com um governo desavergonhado e midiático, que  tripudia em cima da barriga da miséria e da nossa inteligência, enquanto continua  brincando, bebendo, pagodeando, chutando a bola, mordendo a vaca e chacoteando com a nossa cara. É um governinho de  bandeirinhas, sloganzinhos, brochinhos, adesivinhos, estrelinhas, brinquinhos, bonezinhos, canetinhas, agendinhas,  chaveirinhos, reloginhos, camisetinhas, camisinhas e vaselininhas   com a grife do PT. Tudo pequenininho pra caber dentro dos cerebrozinhos dos neopetistazinhos.

Seguinte: pra mim chega. Aproveito  para comunicar  que estou vendendo umas quinquilharias da última campanha lulista e que o dinheiro será revertido para a compra de alimentos para doar aos pobres aqui das cercanias do Palácio do Planalto mesmo.

E abaixo reproduzo a letrinha da musiquinha do hinozinho que vai ajudar a combater a fomezinha do povão. Que um dia vai aprender a não relaxar nem gozar quando lhe disserem que o estupro é inevitável.

Dizem que a fome é negra
Que não tem vacina
Não tem solução
Dizem que quando ela chega
É uma triste sina
Não tem jeito não
Dizem que é da natureza
A fome e a tristeza
Como tudo enfim
Dizem, mas quem diz não sente
Que espalha a semente
Da fome assim

Não, a fome desespera
Ela não espera
Outra ocasião
A questão é mesmo agora
Mudar esta história
Dividir o pão
Olha quanta gente aflita
Nada na marmita
Como vai ter paz?
Zero! Agora é fome zero
É o que mais quero
Fome nunca mais

A fome do brasileiro
Vai ser o primeiro
Ponto da questão
Nesta terra de riqueza
Ver tanta pobreza
É humilhação
Fome só a de justiça
De amor de vida de inspiração
O que não pode acontecer
É fome de comida não

Zero, agora é fome zero
Não venha dizer que não tem solução
O que não pode acontecer
É fome de comida não

Publicado em 4.5.2004

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